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Paulistana, feminista, profissional de marketing. Sonho muito, escrevo pouco.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Teu Machismo me Estupra

Eu não estou preocupada com a porta do carro. Tampouco com a conta do restaurante.
Meu feminismo tem a ver com questões tão veladas. Não se fala disso. É vergonha. É culpa. É sujo. É aterrorizante.
Minha bandeira de feminismo é sobre a mulher ser dona de si, seu corpo, dominadora única de suas vontades, assim como o homem é dono de si. Chega de homens se apoderarem de nós.
Meu feminismo tem a ver com aquele beijo encostado na boca que o pai de uma amiga veio me dar, e sem entender o que era aquilo, me senti suja.
Tem a ver com a vez que, de um abraço, senti um pênis roçando, apesar de tentar levar o quadril pra trás.
Ou ainda sobre a vez que andava na rua e senti uma mão na minha bunda.
O feminismo em questão é sobre assédio. Sobre o quão perverso um homem pode ser com uma mulher.
Minha bandeira é a favor de não ser encoxada no transporte público. De não ser apalpada na multidão.
É sobre estar em casa e apanhar de um marido cruel e bêbado porque a janta não está pronta. Ou não está quente. Ou porque a "vadia" da rua não deu pra ele.
Meu feminismo tem a ver com o direito que eu tenho, ou deveria ter, de vestir o que me der na telha.
Minha voz é para que não se puxe o meu cabelo quando eu estiver passando. É para que o direito ao trabalho, ao emprego e ao salário sejam iguais para todos.
A guerra aqui é pra não ser estuprada. Pra não ser chamada de vaca, vadia, puta, galinha, cachorra, piranha.
O discurso, o protesto, é para que a mulher possa dar sem medo. Ou possa dizer não sem medo.
É pra não ser taxada de louca, mal comida, desequilibrada.
Ser feminista é se solidarizar com mulheres que sofrem por serem mulheres. Por serem mulheres e pobres. Por serem mulheres, pobres e negras. Mulheres e deficientes. Mulheres e sozinhas. Mulheres e mães. Mulheres. É ter um dedo apontado por ser mulher.
É se solidarizar por quem sofre estupro. Por quem menstrua. Por quem é castrada ao nascer.
A grande questão tem a ver com meninas que, ainda meninas, ouvem sussurros, olhares, assédios e estupros de pais, tios, padrastos, vizinhos e amigos de seus pais. E enterram, aterrorizadas, seus traumas em seus úteros por vidas inteiras de culpa. Afinal, elas devem ter pedido por isso.
E depois de meninas, tornam-se mulheres que vivenciam isso ao longo de toda a sua vida. Acostumam-se a ser o objeto do desejo pervertido de homens sujos. E ainda que assustadas, desconfortáveis, traumatizadas e enlouquecidas, elas o são. Afinal, o assédio é cultural.
Se o feminismo fosse questão de quem paga a conta seria fácil.
Não é fácil se sentir nua no meio da rua. Não é fácil chegar na casa de um namorado e sentir o sogro te lambendo com a testa.
Não é fácil enfrentar a malícia. Até porque quando nos é dado tal confronto, ainda somos crianças, nem sabemos nos defender.
Nossas mães não falaram sobre isso conosco. Nossas avós não falaram sobre isso com as nossas mães.
Porque o silêncio é ordem da casa. O silêncio é porque somos sujas e pedimos por isso. O silêncio é porque temos que nos colocar em nosso lugar.
Mas ainda tem gente preocupada se eu quero que abram a porta do carro pra mim.
Feminismo é respeitar o feminino como se respeitaria um igual, um semelhante.
Feminismo é colocar a sua mãe no lugar da vadia, no lugar da gostosa, no lugar da que pediu para ser estuprada.
Porque essas histórias provavelmente aconteceram com sua mãe também. Sim, sua santa mãe, silenciosa, melancólica, abatida por um predador e silenciada pela vida.
Porque, até onde eu sei, não conheço mulher que não tenha passado por alguma situação semelhante. De assédio. De coerção. De medo.
É por isso que o teu machismo me estupra.
Estupra meus direitos, minhas vontades, minhas opiniões.
Estupra o meu direito sobre o meu corpo. De ser quem sou, me entregar a quem eu queira, de ter filhos ou não.
O teu machismo estupra os valores de igualdade e fraternidade. Estupra a empatia, a solidariedade.
O teu machismo estupra a sensibilidade, a delicadeza, a ingenuidade. A liberdade.
Estupra o direito ao aborto.
Teu machismo me estupra todos os dias.
Estupra os meus sentidos.
Mas ainda que sufocada, ainda que estuprada, a minha voz, mesmo parecendo vazia, não há de se calar.

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